Como já passou a data que místicos e charlatões vaticinavam
para o fim do mundo, é possível se postar na Internet alguma coisa sobre riscos
de desastres sem contribuir para a histeria. Se fala muito sobre a imunidade do nosso país aos riscos de
Terremotos e Tsunamis, porém talvez não seja totalmente verdade esta nossa
imunidade, e poderíamos perguntar seriamente.
O Brasil é imune a Tsunamis?
Cientificamente não se pode afirmar que não. Na realidade se formos falar em termos estatísticos poderíamos
comparar o risco de um Tsunami no Brasil com a sorte de um apostador acertar na Quina! Ou seja, o risco é
baixíssimo, entretanto como somos um povo que confiamos na sorte, e fazemos a
nossa fezinha na Quina mesmo sabendo que a chance é baixa, não custa
nada falar sobre estes riscos, até para que numa situação deste tipo de evento
saibamos como nos comportar (assunto que poderá ser desenvolvido em outro post).
Primeiro quais seriam os focos geradores de Tsunami para as
costas brasileiras?
A primeira situação, já descrita em vários blogs e artigos
científicos, é o deslizamento de parte do Vulcão Cumbre Vieja, nas ilhas
Canárias, hipótese que é real e não faz parte de filmes de desastres. Só para dar uma ideia da possibilidade que existe deste evento é
possível localizar em revistas científicas e publicações em congresso nos anos
2011 e 2012, alguns trabalhos publicados sobre o assunto (aqui, AQUI e AQUI, nos dois últimos links é possível se acessar os trabalhos integrais).
As estimativas destes trabalhos são bem otimistas em relação
a trabalhos anteriores, pois os autores supõe que estes tipos de deslizamento
são gradativos e não um deslizamento rotacional como ocorre em meio subaéreo (bloco
contínuo). A meu juízo isto é baseado numa hipótese falsa, esta hipótese é baseado na investigação dos depósitos sedimentares provocados por deslizamentos do mesmo tipo, e como nestas pesquisas foram achadas feições características de depósitos turbidíticos (aqui,
e AQUI), os pesquisadores que as realizaram tomaram como hipótese do mecanismo de formação de correntes turbidíticas, fluxos
contínuos de material para dentro do oceano (não pulsos únicos como um deslizamento rotacional).
A partir de simulações físicas levadas a cabo no NECOD
(Núcleo de Estudos de Corrente de Densidade) se verifica que independente do
mecanismo de gatilho do fluxo (pulso ou fluxo contínuo), as feições
características de fluxos turbidíticos estão presentes, logo a observação pura
e simples do depósito não explica a origem do mecanismo de inicialização do
fluxo, pois com o aumento da distância a origem, do mesmo, há uma segregação
entre camadas que podem ser originadas de múltiplos aportes de sedimentos ou de
um aporte único. Ao nosso juízo uma simulação (AQUI) que partem do
pressuposto de um deslizamento convencional é mais adaptado para a simulação de
riscos, pois resultam em maiores ondas.
O deslizamento de parte do Vulcão Cumbre Vieja, geraria
ondas que segundo as hipóteses adotadas, criariam ondas na costa brasileira que
variariam entre 3m e 18m, ou seja, 3m segundo as simulações supondo um deslizamento
em partes e 18m supondo um modelo análogo a um deslizamento rotacional.
Simulação matemática de um Tsunami gerado pelo deslizamento do Vulcão Cumbre Vieja.
A segunda situação, que não é muito ventilada, é a de
Tsunamis gerados por terremotos na dorsal meso-atlântica (ou crista oceânica do
Atlântico - dorsal oceânica é uma cadeia de montanhas submersas no oceano, que
se originam do afastamento das placas tectônicas). Esta a cordilheira submarina
formada no Atlântico Norte entre placas tectônicas Norte-americana e Euroasiática,
e no Atlântico Sul entre as Placas Sul-americana e Africana. Como estas placas
apresentam um limite divergente (as placas estão se afastando e não se
aproximando) a atividade vulcânica é muito menor (isto não quer dizer que seja
inexistente!), sendo concentrada estas atividades próximas as ilhas do Caribe e
as ilhas Sandwich do Sul.
Fonte: http://www.maine.gov/doc/nrimc/mgs/explore/hazards/tsunami/jan05-5.htm |
Agora no caso das ilhas Sandwich do Sul são grupo de ilhas
vulcânicas criadas pela subducção da Placa Sul-Americana sob a placa Sandwich
do Sul. Apesar da placa Sandwich do Sul ser muito pequena, o encontro entre
estas duas torna a região muito ativa em termos de terremotos, em 2 de
janeiro de 2006, por exemplo, ocorreu um tremor de escala 7,4 (escala Richter), que já é considerado um tremor
de grande escala. Como o epicentro deste tremor era um pouco profundo (10km)
não causou maiores problemas, mas de novo vemos que há uma probabilidade de
geração de tremores do mesmo porte com movimento significativo do leito do mar.
As figuras a seguir, mostram a Sismicidade
histórica da região. A primeira mostrando os terremotos a partir de 1900 de magnitude
maior do que 7 na escala Richter (grandes e importantes), e a segunda todos os
terremotos da escala 3 ou maior no mesmo período.
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Fonte: National Earthquake Hazards Program do USGS. |
É importante destacar que somente há pouco tempo (2011) nesta região foram
localizados uma dúzia de grandes vulcões submersos ativos e não ativos, vulcões com até 2000m de altura, (AQUI
e AQUI). Deslizamentos desses vulcões podem causar um Tsunami de grande porte.
Antes de terminar vamos a mais duas observações, em 1542, no
início da colonização do Brasil, a primeira cidade construída pelos Portugueses
no Brasil, a cidade de São Vicente, foi demolida por ondas de mais de 8 metros
de altura, logo um fato histórico que permite a conclusão que não somos imunes
a este tipo de desastre. Também para acrescentar mais uma causa a formação de Tsunamis
podemos supor que o mecanismo de deslizamento da borda da plataforma possa gerar
tsunamis, mas aí já é outra história.